Toda equipe de sustentação de ERP conhece a cena: uma fila com dezenas de chamados, cada solicitante convencido de que o seu é o mais urgente, e o time apagando incêndios sem conseguir avançar em nada estrutural. No fim do mês, a sensação é de muito esforço e pouco resultado visível.

O problema raramente é falta de trabalho duro. É falta de critério. Este artigo propõe uma forma simples de organizar o backlog de sustentação para que a fila seja previsível, defensável e alinhada ao que o negócio realmente precisa.

Separe o que é sustentação do que não é

O primeiro passo é parar de tratar tudo como “chamado”. Itens de natureza diferente competem pelo mesmo time, mas não podem ser priorizados da mesma forma.

Tipo O que é Exemplo
Incidente Algo que funcionava e parou ou está errado Rotina de faturamento travando na geração da nota
Dúvida / suporte O sistema funciona, o usuário precisa de orientação Como emitir um relatório com outro filtro
Melhoria Mudança pequena em algo que já existe Novo campo em uma tela, ajuste de validação
Projeto Demanda nova, com escopo, esforço e risco maiores Integração com um sistema novo, novo processo

Essa classificação muda tudo. Incidentes seguem um fluxo de resposta rápida. Dúvidas viram base de conhecimento e treinamento. Melhorias entram no backlog priorizado. Projetos saem do backlog de sustentação e vão para o portfólio, com patrocinador e aprovação própria.

Se um “chamado” leva mais de alguns dias de esforço ou envolve mais de uma área, provavelmente é um projeto disfarçado de melhoria. Tratá-lo como sustentação é o caminho mais curto para atrasar todo o resto.

Defina critérios de prioridade que o negócio entenda

Prioridade não pode depender de quem grita mais alto ou de quem tem o cargo mais alto. Ela precisa de critérios claros, conhecidos por todos.

Para incidentes, uma matriz de impacto e urgência costuma ser suficiente:

Urgência alta Urgência baixa
Impacto alto (parada de processo, muitos usuários, risco fiscal ou financeiro) P1 — tratar imediatamente P2 — tratar no mesmo dia
Impacto baixo (um usuário, existe contorno) P3 — tratar na semana P4 — tratar quando houver janela

Para melhorias, use uma pontuação simples que combine valor e esforço. Um modelo prático:

  • Valor (1 a 5): economia de tempo, redução de erro, exigência legal, impacto em cliente.
  • Abrangência (1 a 5): quantas pessoas ou processos são beneficiados.
  • Esforço (1 a 5): horas estimadas, complexidade técnica, risco de efeito colateral.

Pontuação = (Valor × Abrangência) ÷ Esforço. Não é uma fórmula perfeita — e não precisa ser. O ganho está em tornar a conversa objetiva: em vez de “o meu é mais importante”, discute-se por que um item tem valor 4 e não 2.

Reserve capacidade por tipo de trabalho

Um erro comum é deixar que incidentes consumam toda a capacidade do time. Quando isso acontece, as melhorias nunca andam, os mesmos problemas continuam gerando novos incidentes, e o ciclo se repete.

Uma alternativa é dividir a capacidade da equipe de forma explícita, por exemplo:

  • 50% para incidentes e suporte — com esse percentual revisado a cada mês, conforme o histórico.
  • 30% para melhorias priorizadas do backlog.
  • 20% para dívida técnica e prevenção — corrigir causas-raiz, revisar customizações frágeis, documentar.

Os percentuais exatos dependem do ambiente. O importante é que existam, sejam conhecidos e sejam acompanhados. Se os incidentes passarem do limite com frequência, isso é um dado para a gestão — não algo a ser absorvido em silêncio pelo time.

Faça um ritual curto e regular de priorização

Critério sem ritual vira planilha esquecida. Uma rotina simples funciona bem:

  1. Triagem diária (15 minutos): classificar o que entrou, definir prioridade de incidentes, devolver pedidos incompletos.
  2. Priorização quinzenal ou mensal (1 hora): com os key users ou responsáveis de cada área, revisar a pontuação das melhorias e decidir o que entra no próximo ciclo.
  3. Revisão mensal de indicadores: volume por tipo, tempo de atendimento, itens mais recorrentes.

A presença das áreas de negócio na priorização é o ponto mais importante. Quando quem pede participa da decisão, a TI deixa de ser a “dona da fila” e passa a ser parceira na escolha do que traz mais resultado.

Exija um mínimo de informação para entrar na fila

Muito tempo de sustentação é perdido tentando entender o que foi pedido. Defina um padrão mínimo para qualquer solicitação:

  • Qual processo e qual rotina estão envolvidos.
  • O que acontece hoje e o que deveria acontecer.
  • Passos para reproduzir, com exemplo real (documento, pedido, produto).
  • Impacto: quantas pessoas, que prazo, que risco.

Solicitações incompletas voltam ao solicitante antes de entrar no backlog. Parece burocrático, mas reduz drasticamente o vai-e-vem e acelera o atendimento de todos.

Ataque as causas, não só os sintomas

O backlog também é uma fonte de diagnóstico. Uma vez por mês, olhe para os incidentes resolvidos e pergunte:

  • Quais rotinas ou integrações geram mais chamados?
  • Quais incidentes são, na verdade, falta de treinamento?
  • Que customizações quebram a cada atualização?

Os três ou quatro itens que mais se repetem merecem virar melhorias ou ações de prevenção prioritárias. É assim que a fila diminui de verdade ao longo do tempo — e é exatamente para isso que serve a capacidade reservada para dívida técnica.

Indicadores para acompanhar

Poucos indicadores, bem escolhidos, bastam para mostrar a evolução:

Indicador O que mostra
Volume de entrada por tipo Se a demanda está crescendo e de que natureza
Tempo médio de atendimento por prioridade Se o time está cumprindo o combinado
Idade média do backlog de melhorias Se as melhorias estão andando ou só acumulando
Incidentes recorrentes Se as causas-raiz estão sendo tratadas
Distribuição real da capacidade Se a divisão planejada está sendo respeitada

Checklist para começar na próxima semana

  • Classificar o backlog atual em incidente, dúvida, melhoria e projeto
  • Retirar os projetos do backlog de sustentação e levá-los para aprovação própria
  • Publicar a matriz de prioridade de incidentes
  • Pontuar as melhorias com valor, abrangência e esforço
  • Definir a divisão de capacidade do time
  • Agendar a primeira reunião de priorização com as áreas
  • Definir o padrão mínimo de informação para novas solicitações

Um backlog bem organizado não elimina a pressão do dia a dia, mas transforma a conversa: em vez de justificar atrasos, a sustentação passa a mostrar escolhas, critérios e resultados. É isso que dá previsibilidade ao time e confiança ao negócio.